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O crescimento do endividamento entre brasileiros de renda elevada revela uma contradição importante: ganhar mais dinheiro não significa, necessariamente, ter uma vida financeira melhor. Sem educação financeira, o aumento da renda pode representar apenas o crescimento das despesas, das dívidas e dos compromissos financeiros.
Por Julio Santos — Educador financeiro
Existe uma crença profundamente enraizada na sociedade brasileira de que a solução para os problemas financeiros está no aumento da renda.
Muitas pessoas acreditam que, quando conseguirem um salário melhor, uma promoção profissional, um faturamento maior ou um pró-labore mais elevado, finalmente terão condições de organizar suas finanças, eliminar dívidas, começar a investir e construir patrimônio.
Enquanto esse momento não chega, continuam adiando decisões importantes, convencidas de que sua situação financeira atual não permite fazer nada diferente.
O problema é que essa expectativa frequentemente não se concretiza.
A renda aumenta, mas as despesas acompanham o crescimento dos ganhos e, em determinadas situações, crescem ainda mais rapidamente.
O padrão de consumo se eleva, novos compromissos são assumidos, o acesso ao crédito se amplia e aquela tranquilidade financeira tão desejada continua distante.
A pessoa passa a ganhar mais dinheiro, mas permanece com as mesmas dificuldades de antes, agora envolvendo valores maiores.
Essa realidade revela um dos principais equívocos da nossa cultura financeira: acreditar que ganhar dinheiro e saber administrá-lo são competências equivalentes.
Não são.
Uma pessoa pode ser um excelente profissional, ter elevada escolaridade, ocupar posições importantes no mercado de trabalho, administrar negócios e receber uma remuneração expressiva, mas apresentar sérias dificuldades para controlar suas despesas, planejar o futuro e construir patrimônio.
É justamente essa contradição que uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, em 12 de outubro de 2026, ajuda a compreender.
A matéria apresenta dados do Banco Central que revelam um crescimento expressivo do uso de modalidades caras de crédito entre brasileiros de renda mais elevada, enquanto determinados indicadores dessas mesmas modalidades recuaram entre as faixas de menor renda.
Trata-se de um fenômeno que merece uma reflexão mais profunda, especialmente quando analisado sob a perspectiva da educação financeira.
O endividamento não é um problema exclusivo de quem ganha pouco
A reportagem da jornalista Maeli Prado, intitulada “Uso de rotativo e cheque especial dispara entre os mais ricos e encolhe entre os mais pobres”, apresenta informações levantadas no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central.
Segundo os dados publicados, entre julho de 2023 e julho de 2026, o saldo devido no rotativo do cartão de crédito e no cheque especial por pessoas com rendimentos superiores a dez salários mínimos aumentou 93% em termos reais, isto é, descontada a inflação.
No mesmo período, a participação desse grupo no estoque dessas modalidades de crédito passou de 13,1% para 23,3%, alcançando R$ 30,3 bilhões.
Entre os brasileiros com rendimentos superiores a vinte salários mínimos, a participação praticamente dobrou, passando de 5,3% para 10,5%.
São números expressivos, especialmente porque estamos falando de duas modalidades emergenciais de crédito, conhecidas por suas elevadas taxas de juros.
Em sentido contrário, entre as pessoas com rendimentos de até cinco salários mínimos, o saldo devido nessas modalidades apresentou redução de 10,6% no período analisado.
A participação desse grupo no estoque total passou de 69,4% para 57,4%.
Isso não significa que a população de menor renda tenha superado seus problemas financeiros, mas revela uma mudança importante na distribuição do crédito entre os diferentes segmentos de renda.
Outro dado mencionado na reportagem, com base em informações de setembro da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostra que 71,9% das famílias com rendimentos superiores a dez salários mínimos estavam endividadas.
É importante esclarecer que estar endividado não significa necessariamente estar inadimplente ou financeiramente descontrolado, pois financiamentos e compras parceladas também são considerados dívidas.
Entretanto, quando observamos simultaneamente o crescimento do uso do rotativo e do cheque especial, encontramos razões concretas para questionar a qualidade da administração financeira de parte dessa população.
Durante muito tempo, consolidou-se a percepção de que o endividamento excessivo estaria relacionado principalmente à insuficiência de renda.
Segundo esse raciocínio, as pessoas utilizariam o cartão de crédito, o cheque especial e os empréstimos porque seus salários não seriam suficientes para atender às necessidades familiares.
Embora essa situação realmente exista e afete milhões de brasileiros, ela não explica todas as manifestações do descontrole financeiro.
Os dados apresentados pelo Banco Central desafiam essa interpretação simplificada.
Se ganhar mais fosse suficiente para garantir equilíbrio financeiro, seria razoável esperar que as pessoas com rendimentos superiores apresentassem, necessariamente, uma situação mais confortável.
Entretanto, o crescimento expressivo do uso de crédito emergencial entre essas pessoas demonstra que a renda elevada não representa uma proteção automática contra dificuldades financeiras.
É justamente nesse ponto que precisamos abandonar uma interpretação exclusivamente baseada na quantidade de dinheiro recebida e considerar uma dimensão frequentemente negligenciada: o comportamento financeiro das pessoas.
O aumento da renda não corrige automaticamente os hábitos financeiros
Uma das frases mais conhecidas quando se discute dinheiro é também uma das mais reveladoras: quanto mais se ganha, mais se gasta.
Evidentemente, isso não acontece com todas as pessoas, mas representa um comportamento suficientemente comum para merecer atenção.
À medida que a renda aumenta, surgem novos desejos, novas referências de consumo e uma percepção diferente daquilo que seria necessário para manter determinado padrão de vida.
Quem recebe R$ 5 mil mensais pode acreditar que todos os seus problemas desapareceriam se passasse a ganhar R$ 10 mil.
Entretanto, ao alcançar essa remuneração, talvez decida trocar de automóvel, mudar para uma residência mais cara, frequentar outros estabelecimentos, viajar com maior frequência e assumir despesas que antes não faziam parte de sua rotina.
Em pouco tempo, os novos rendimentos estarão comprometidos e a sensação de insuficiência financeira poderá reaparecer.
O mesmo processo pode acontecer com quem ganha R$ 20 mil, R$ 30 mil ou R$ 40 mil.
Não existe um valor de renda que, por si só, elimine a possibilidade de descontrole financeiro.
O que determina a sustentabilidade de um padrão de vida é a relação entre os recursos disponíveis, as despesas assumidas, os compromissos futuros e a capacidade de formar reservas e patrimônio.
Considere duas famílias. A primeira recebe R$ 30 mil mensais, mas gasta R$ 33 mil e utiliza regularmente o crédito para cobrir a diferença.
A segunda recebe R$ 15 mil, mantém suas despesas em R$ 12 mil e consegue direcionar R$ 3 mil para reservas e investimentos.
Embora a primeira tenha o dobro da renda, é a segunda que apresenta uma condição financeira mais sustentável nesse exemplo.
Naturalmente, essa comparação não significa que a renda seja irrelevante. Rendimentos insuficientes para atender às necessidades básicas representam uma limitação concreta, que não pode ser superada apenas com disciplina ou organização.
Entretanto, quando existe alguma margem de escolha, a maneira como o dinheiro é administrado passa a exercer influência decisiva sobre os resultados financeiros.
O grande equívoco está em imaginar que os problemas de administração desaparecerão espontaneamente quando os rendimentos aumentarem. Na realidade, hábitos inadequados podem acompanhar a pessoa durante toda a sua trajetória profissional, independentemente do sucesso alcançado.
A renda não determina, por si só, o comportamento financeiro
Duas famílias com rendimentos semelhantes, vivendo na mesma cidade e submetidas às mesmas condições econômicas, podem apresentar situações financeiras completamente diferentes.
Enquanto uma acumula dívidas e enfrenta dificuldades recorrentes, a outra consegue manter suas contas equilibradas, formar reservas e construir patrimônio.
Essa diferença demonstra que não podemos compreender os problemas financeiros das famílias considerando exclusivamente a renda ou os indicadores econômicos.
Quando observamos o crescimento do endividamento entre pessoas que recebem mais de dez ou vinte salários mínimos, precisamos questionar a ideia de que as dificuldades financeiras decorrem necessariamente da insuficiência de recursos.
Estamos falando de pessoas que, em muitos casos, possuem rendimentos suficientes para atender às necessidades familiares, desfrutar de conforto e ainda reservar parte do dinheiro para o futuro.
Entretanto, uma parcela delas continua utilizando modalidades caras de crédito e assumindo compromissos que comprometem sua estabilidade financeira.
O que explica esse comportamento?
Em muitos casos, a resposta está na maneira como as pessoas administram o dinheiro, nas prioridades estabelecidas, nos hábitos de consumo e na dificuldade de reconhecer os limites da própria capacidade financeira.
Uma pessoa pode ganhar muito e gastar ainda mais, assim como outra, com rendimentos inferiores, pode organizar suas despesas e construir patrimônio ao longo dos anos.
É por essa razão que considero insuficiente recorrer a explicações sobre crises econômicas de anos anteriores para compreender o crescimento recente do endividamento entre consumidores de renda elevada.
Essas explicações podem descrever acontecimentos econômicos, mas não demonstram, por si só, por que determinadas pessoas continuam acumulando dívidas mesmo dispondo de rendimentos expressivos.
É necessário investigar o comportamento financeiro desses consumidores e a forma como utilizam os recursos que recebem.
A educação financeira trabalha justamente com essa dimensão da vida das pessoas.
Seu propósito não é apenas apresentar informações sobre dinheiro, mas desenvolver conhecimentos e comportamentos que permitam administrar adequadamente os rendimentos, controlar despesas, avaliar o uso do crédito, estabelecer prioridades e construir patrimônio.
Sem esse aprendizado, o aumento da renda pode simplesmente proporcionar acesso a um padrão de consumo mais elevado, acompanhado de compromissos financeiros igualmente maiores.
O problema central não é apenas quanto dinheiro uma pessoa ganha, mas o que ela faz com o dinheiro que recebe. Essa é uma distinção fundamental para compreender por que tantas pessoas conseguem alcançar sucesso profissional e rendimentos elevados sem conquistar uma vida financeira equilibrada.
Julio Santos
Educador financeiro, consultor, palestrante e coordenador da ESCEF® – Escola de Educação Financeira.
Referência jornalística: PRADO, Maeli. Uso de rotativo e cheque especial dispara entre os mais ricos e encolhe entre os mais pobres. Folha de S.Paulo, 12 de outubro de 2026.
Continua na Parte 2 — Consumo, crédito e a armadilha de aparentar riqueza.