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Inflação, custo de vida e salários baixos são realmente os principais responsáveis pelo endividamento do brasileiro? Depois de mais de 1.500 consultorias financeiras, minha experiência mostra que precisamos olhar para outro lugar: para dentro do próprio comportamento financeiro.
Existe uma explicação para o endividamento do brasileiro que se tornou quase automática.
Quando alguém está enfrentando dificuldades financeiras, logo aparecem três justificativas: a inflação está alta, o custo de vida aumentou ou o salário é baixo.
Não estou dizendo que esses fatores não tenham importância. Eles têm.
O problema começa quando essas explicações passam a ser utilizadas para justificar praticamente todos os casos de descontrole financeiro.
Depois de mais de 1.500 consultorias financeiras, realizadas com pessoas de diferentes níveis de renda e em diferentes momentos da vida, percebo um padrão que merece ser discutido.
Existem pessoas que ganham pouco e realmente enfrentam uma dificuldade objetiva para manter as despesas básicas. Mas também existem pessoas que ganham R$ 10 mil, R$ 20 mil, R$ 30 mil ou mais e continuam gastando tudo o que ganham — e, em alguns casos, até mais do que ganham.
Nesse segundo grupo, a pergunta precisa ser outra.
Talvez o problema não esteja apenas na renda.
Talvez esteja na forma como essa pessoa se relaciona com o dinheiro, no padrão de consumo que escolheu, na ausência de planejamento e, principalmente, na dificuldade de estabelecer limites para aquilo que deseja comprar.
A inflação é um problema, mas não explica tudo
É importante fazer uma ressalva para evitar uma conclusão equivocada.
A inflação afeta, sim, a vida das pessoas. Quando os preços aumentam, especialmente de produtos e serviços essenciais, famílias de menor renda podem sentir esse impacto de maneira muito intensa.
O próprio IBGE explica que o IPCA mede a variação dos preços de uma cesta de bens e serviços consumidos pelas famílias, e que a inflação de cada família pode ser diferente conforme seus hábitos de consumo.
Mas precisamos colocar as coisas em perspectiva. O IPCA fechou 2021 em 10,06%. Depois disso, ficou em 5,79% em 2022, 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025.
Portanto, depois daquele momento excepcional de 2021, a inflação anual voltou para uma faixa significativamente menor e relativamente estável.
Isso não significa que os preços tenham diminuído, porque inflação menor não significa preços menores; significa apenas que os preços passaram a subir mais lentamente.
Também é verdade que o rendimento do trabalho apresentou melhora nos últimos anos.
Em 2025, o rendimento real habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.560 na média anual, 5,7% acima de 2024.
No quarto trimestre, chegou a R$ 3.613. Isso não significa que o salário brasileiro seja alto ou que as dificuldades de renda tenham desaparecido.
Significa apenas que não podemos utilizar “salário baixo” como explicação universal para todos os casos de endividamento.
A questão que quero levantar é muito mais simples: se inflação, custo de vida e renda explicam uma parte do problema, o que estamos fazendo com a parte do problema que está dentro das nossas próprias decisões?
Porque existe uma realidade que nenhum índice econômico consegue mostrar: o orçamento individual de cada família.
O orçamento revela aquilo que as explicações gerais não mostram
Uma coisa é analisar milhões de brasileiros e observar inflação, desemprego, renda média e custo de vida.
Outra completamente diferente é sentar diante de uma família e analisar, linha por linha, para onde está indo o dinheiro.
É justamente nesse momento que algumas explicações gerais deixam de ser suficientes e começam a aparecer comportamentos que precisam ser enfrentados.
Você encontra uma pessoa reclamando que não consegue guardar dinheiro, mas que possui dezenas de compras parceladas.
Encontra outra dizendo que o salário não é suficiente, mas que gasta centenas de reais por mês em transporte por aplicativo quando existe uma alternativa mais barata.
Encontra famílias que dizem não ter dinheiro para investir, mas que fazem pedidos de comida várias vezes por semana e compram continuamente pela internet.
Também encontro pessoas que ganham R$ 20 mil ou R$ 30 mil e estão tão desorganizadas financeiramente quanto estavam quando ganhavam uma fração dessa renda.
É nesse ponto que precisamos começar a falar seriamente sobre consumo, porque muitas vezes o problema não está apenas na insuficiência da renda, mas na ausência de parâmetros para gastar.
O problema pode não ser quanto você ganha, mas quanto você decidiu gastar
Tenho encontrado uma situação recorrente nas consultorias: a pessoa aumenta a renda, mas não melhora sua vida financeira.
Ela simplesmente aumenta o padrão de consumo.
Quando ganhava R$ 3 mil, gastava R$ 3.500. Depois passou a ganhar R$ 5 mil e passou a gastar R$ 6 mil.
Mais tarde, conseguiu uma renda de R$ 10 mil e elevou novamente as despesas.
O resultado é que a pessoa passa anos acreditando que precisa ganhar mais dinheiro para finalmente conseguir organizar a vida financeira.
O problema é que, quando a renda aumenta, o consumo também aumenta.
O carro melhora, a casa melhora, as viagens aumentam, os restaurantes aumentam, as compras aumentam e, principalmente, aumentam aquelas despesas que parecem pequenas individualmente, mas que, somadas, comprometem uma parcela enorme da renda.
Conheço situações em que uma pessoa que ganhava R$ 30 mil por mês gastava R$ 35 mil. Isso é extremamente revelador.
Não significa que essa pessoa não precise aumentar sua renda, mas significa que simplesmente aumentar a renda não resolverá necessariamente o problema. Se ela passar a ganhar R$ 40 mil e elevar suas despesas para R$ 45 mil, continuará enfrentando exatamente a mesma dificuldade.
Isso revela uma questão fundamental: aumento de renda não é sinônimo de melhoria financeira.
Se o comportamento não mudar, a pessoa pode passar a vida inteira correndo atrás de uma renda maior sem jamais alcançar tranquilidade financeira.
Ela não está necessariamente resolvendo o problema; muitas vezes está apenas aumentando a velocidade da corrida.
A sociedade moderna tornou o consumo fácil demais
Nunca foi tão fácil comprar. Essa talvez seja uma das maiores transformações da nossa vida financeira nas últimas décadas.
Hoje você não precisa sair de casa para comprar praticamente nada. Pode pedir comida, chamar transporte, comprar roupas, eletrônicos, produtos para casa, presentes e uma infinidade de outras coisas usando apenas o celular.
O problema não está na tecnologia. Ela trouxe inúmeros benefícios e tornou nossa vida muito mais prática.
O problema aparece quando a praticidade elimina o tempo que antes existia entre o desejo e a compra.
Quanto menor o intervalo entre pensar em alguma coisa e efetivamente comprá-la, menor também pode ser o espaço para refletir se aquela compra realmente faz sentido.
Antigamente, para comprar alguma coisa, muitas vezes era necessário sair de casa, procurar o produto, enfrentar trânsito, comparar preços, entrar em uma loja e tomar uma decisão.
Hoje, em muitos casos, basta abrir um aplicativo. O produto está disponível, o cartão já está cadastrado e a compra pode acontecer em poucos segundos.
Essa facilidade pode ser maravilhosa para a vida cotidiana, mas também pode ser perigosa para quem não desenvolveu autocontrole financeiro.
A tecnologia não apenas facilitou o consumo; ela reduziu o atrito entre o desejo e a compra.
E quando esse mecanismo se repete diariamente, pode transformar uma compra eventual em um comportamento permanente.
Quando a conveniência vira hábito
Imagine uma pessoa que ganha R$ 3 mil por mês e gasta R$ 400 em transporte por aplicativo.
São R$ 400 que representam mais de 13% da renda mensal.
Existem situações em que o transporte por aplicativo é necessário, obviamente, e não estou dizendo que ninguém deveria utilizá-lo.
A questão é outra: quanto desse gasto é necessidade e quanto se transformou em hábito?
Antes da existência desses aplicativos, as pessoas encontravam outras formas de se locomover.
Utilizavam transporte público, caminhavam, compartilhavam deslocamentos ou simplesmente planejavam melhor seus compromissos.
Hoje, a facilidade pode fazer com que uma alternativa mais cara seja escolhida automaticamente, sem que a pessoa sequer perceba que está tomando uma decisão financeira.
O mesmo acontece com alimentação.
A pessoa abre um aplicativo, escolhe o restaurante, seleciona a refeição e recebe a comida em casa.
Não precisa sair, procurar um restaurante, comprar ingredientes, preparar a comida ou organizar a cozinha.
A conveniência é enorme, mas a conveniência tem preço, e quando ela se transforma em rotina pode representar uma despesa financeira relevante ao final do mês.
Por isso, não estou defendendo que as pessoas abandonem a tecnologia. Estou defendendo que elas aprendam a utilizá-la sem permitir que ela determine seus hábitos de consumo. Uma ferramenta que facilita a vida pode ser excelente; uma ferramenta que facilita permanentemente o gasto de dinheiro pode se tornar um problema quando não existe consciência sobre seu impacto no orçamento.
O crédito transformou o futuro em dinheiro disponível hoje
Existe, porém, outro elemento que precisa entrar nessa discussão: o crédito.
O brasileiro não vive apenas em uma sociedade na qual é fácil comprar; vive também em uma sociedade na qual é relativamente fácil obter crédito para comprar aquilo que não poderia pagar à vista.
O cartão de crédito, o parcelamento, o crédito pessoal, os financiamentos e outras modalidades transformaram a relação entre desejo e capacidade financeira.
Muitas vezes, a pessoa não pergunta se tem dinheiro para comprar. Ela pergunta se consegue pagar a parcela.
E essa mudança aparentemente pequena é uma das grandes armadilhas do comportamento financeiro.
A parcela reduz psicologicamente o tamanho da compra. Um produto de R$ 2 mil parece muito diferente quando apresentado como dez parcelas de R$ 200.
O problema é que o orçamento não recebe apenas uma parcela. Recebe essa parcela somada a todas as outras decisões tomadas anteriormente.
É assim que uma renda aparentemente suficiente pode acabar completamente comprometida.
A tecnologia tornou esse processo ainda mais simples.
Hoje é possível receber ofertas de crédito diretamente no celular, simular empréstimos, comparar propostas e contratar operações sem precisar enfrentar a burocracia que existia no passado.
O Crédito do Trabalhador é um exemplo recente: trabalhadores com carteira assinada podem solicitar propostas por meio da Carteira de Trabalho Digital, receber ofertas de instituições financeiras e acompanhar as operações digitalmente.
Não estou dizendo que o crédito seja ruim.
O crédito pode ser útil, necessário e até estratégico quando utilizado corretamente.
O problema aparece quando a facilidade de acesso ao crédito se combina com a dificuldade de controlar o consumo.
Nesse cenário, o crédito deixa de ser uma ferramenta e passa a funcionar como combustível para um padrão de vida que a renda não consegue sustentar.
O endividamento não começou agora
Outro ponto que considero importante é perceber que o problema do endividamento das famílias brasileiras não surgiu com a inflação dos últimos anos.
Ele não é apenas consequência da pandemia, da crise econômica mais recente ou de alguma dificuldade específica do momento atual.
Há muitos anos o endividamento das famílias permanece em patamares elevados, atravessando períodos econômicos muito diferentes.
Tivemos crescimento, recessão, desemprego elevado, recuperação do mercado de trabalho, inflação mais alta e inflação mais baixa.
E, apesar de todas essas mudanças, o problema do endividamento continuou fazendo parte da realidade financeira de milhões de famílias.
Isso deveria nos levar a uma reflexão. Se o problema fosse exclusivamente uma circunstância econômica momentânea, seria razoável esperar que, com a mudança dessas circunstâncias, o comportamento financeiro das famílias também melhorasse de forma significativa. Mas não é isso que vemos necessariamente na prática.
O endividamento é um fenômeno que também está relacionado à forma como as pessoas consomem, utilizam crédito, planejam suas despesas e tomam decisões financeiras.
Por isso, não podemos tratar a dívida apenas como consequência de uma economia ruim.
Em muitos casos, ela também é consequência de decisões tomadas repetidamente durante meses e anos.
Quando a pessoa está desempregada, ela quer educação financeira. Quando volta a trabalhar, ela esquece
Existe ainda um comportamento que observo e que considero muito revelador.
Quando uma pessoa está desempregada ou enfrentando uma situação financeira difícil, ela costuma reconhecer a importância da educação financeira.
Ela diz que precisa aprender a organizar o dinheiro, controlar os gastos, sair das dívidas e se preparar melhor.
Mas, quando consegue um emprego e volta a receber um salário, muitas vezes essa preocupação desaparece.
A renda volta a entrar e, rapidamente, o consumo volta a ocupar o espaço que antes era destinado à reflexão financeira.
Isso mostra que muitas pessoas não procuram educação financeira para aprender a administrar melhor o dinheiro quando tudo está bem.
Elas procuram educação financeira quando o problema já apareceu. É como procurar um médico somente depois que a doença se instalou, em vez de desenvolver hábitos que ajudem a preveni-la.
A educação financeira deveria funcionar de outra maneira.
Ela não deveria ser lembrada apenas quando existe dívida. Deveria estar presente justamente quando a pessoa recebe uma promoção, consegue um emprego novo, aumenta sua renda ou recebe um dinheiro extraordinário.
Esses momentos também representam riscos financeiros, porque uma renda maior pode produzir imediatamente um padrão de consumo maior.
O consumo deixou de ser apenas necessidade
Vivemos em uma sociedade baseada no consumo. Isso não é necessariamente ruim, porque consumir faz parte da vida.
Todos temos necessidades, desejos, sonhos e vontades.
Queremos uma casa melhor, um carro melhor, uma viagem, uma roupa, um celular, uma boa refeição e conforto para nossa família.
O problema começa quando consumir deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser uma resposta automática aos nossos desejos.
A publicidade estimula, as redes sociais mostram o que outras pessoas estão comprando, os aplicativos facilitam, o crédito permite antecipar e o parcelamento reduz a sensação imediata do preço.
O resultado é uma sociedade cada vez mais preparada para consumir e cada vez menos preparada para esperar.
Talvez esse seja um dos grandes desafios da educação financeira contemporânea.
Não precisamos ensinar as pessoas a deixar de consumir, mas precisamos ajudá-las a consumir de maneira consciente, sabendo que cada decisão de hoje interfere na liberdade financeira de amanhã.
A pressa também custa dinheiro
Existe outra característica do nosso tempo que merece atenção: queremos tudo rapidamente.
Queremos ganhar mais rapidamente, comprar rapidamente, receber rapidamente, comer rapidamente, viajar rapidamente e resolver rapidamente.
Essa pressa também chegou à nossa relação com o dinheiro e tem consequências importantes sobre nossas decisões financeiras.
A pessoa não quer esperar para comprar, então parcela.
Não quer esperar para trocar de carro, então financia. Não quer cozinhar, então pede comida.
Não quer utilizar transporte público, então chama um carro.
Não quer esperar uma promoção ou juntar dinheiro, então compra agora.
Isoladamente, cada decisão pode parecer pequena e justificável.
O problema aparece quando essas decisões se repetem durante meses e anos.
O resultado pode ser uma estrutura financeira pesada, cheia de compromissos futuros, na qual boa parte da renda de amanhã já foi consumida pelas escolhas de hoje.
Por isso, educação financeira não é apenas aprender a fazer uma planilha.
É também aprender a adiar uma decisão de consumo quando necessário, controlar um impulso, estabelecer prioridades e entender que nem tudo aquilo que podemos comprar precisa ser comprado imediatamente.
Ganhar mais é importante, mas saber administrar é indispensável
É evidente que buscar crescimento profissional e aumentar a renda é importante.
Para muitas famílias, aumentar a renda é uma necessidade real e pode ser uma das estratégias mais importantes para melhorar a qualidade de vida.
O problema está em acreditar que aumentar a renda substitui a necessidade de administrar o dinheiro.
Não substitui. Uma pessoa pode precisar fazer as duas coisas simultaneamente: aumentar sua renda e melhorar sua gestão financeira.
Porque renda é entrada, enquanto gestão financeira é decisão. Uma renda maior sem gestão pode simplesmente produzir um consumo maior, um padrão de vida mais caro e, consequentemente, uma necessidade ainda maior de continuar aumentando a renda.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes que uma pessoa possa fazer não seja apenas “como faço para ganhar mais dinheiro?”.
Antes disso, deveria perguntar: “o que estou fazendo com o dinheiro que já ganho?” Essa pergunta pode revelar desperdícios, excessos, impulsos e hábitos que permanecem invisíveis enquanto toda a atenção está concentrada na busca por uma renda maior.
Educação financeira precisa ensinar autocontrole
É por isso que acredito que educação financeira precisa ser muito mais ampla do que planilhas, investimentos e matemática financeira.
Precisamos falar sobre comportamento, emoções, impulsividade, comparação social, desejos, consumo e, principalmente, sobre a capacidade de controlar decisões que podem comprometer nosso futuro.
Uma pessoa pode saber exatamente como funciona uma taxa de juros e ainda assim comprar por impulso.
Pode conhecer investimentos e não ter nenhum dinheiro investido. Pode saber que o cartão de crédito precisa ser utilizado com cuidado e continuar parcelando compras desnecessárias.
Pode conhecer a importância de uma reserva financeira e nunca construir uma.
Isso acontece porque conhecimento financeiro e comportamento financeiro não são exatamente a mesma coisa. Saber o que deveria ser feito não significa necessariamente conseguir fazer aquilo na prática.
A educação financeira precisa ajudar a construir essa ponte entre conhecimento e comportamento, ensinando não apenas como organizar números, mas como tomar decisões melhores.
O dinheiro precisa voltar a ser uma decisão
Talvez essa seja uma das grandes missões da educação financeira nos próximos anos.
Precisamos aprender a consumir de maneira consciente em uma sociedade que trabalha o tempo inteiro para nos fazer consumir.
Não precisamos deixar de consumir, mas precisamos deixar de consumir automaticamente.
Não precisamos abandonar nossos desejos, mas precisamos aprender a escolher quais deles cabem na nossa realidade.
Também não precisamos deixar de buscar uma renda maior. Precisamos apenas parar de acreditar que uma renda maior resolverá, sozinha, nossos problemas financeiros.
Uma pessoa que não sabe administrar R$ 5 mil pode ter dificuldades para administrar R$ 10 mil, e uma pessoa que gasta R$ 35 mil quando ganha R$ 30 mil pode simplesmente aumentar o tamanho do problema se sua renda subir para R$ 40 mil sem que seu comportamento seja transformado.
É necessário também aprender a construir uma relação diferente com o futuro.
O consumo imediato oferece uma recompensa concreta e rápida, enquanto poupar significa abrir mão de alguma coisa hoje para obter segurança ou liberdade amanhã. Em uma sociedade cada vez mais imediatista, essa escolha exige consciência, disciplina e capacidade de adiar recompensas.
Talvez você não precise apenas ganhar mais
Se você está enfrentando dificuldades financeiras, antes de concluir que precisa simplesmente ganhar mais dinheiro, faça uma pergunta diferente: se minha renda aumentasse hoje em 20%, eu realmente melhoraria minha vida financeira ou simplesmente aumentaria meus gastos?
A resposta pode ser desconfortável, mas pode revelar algo importante sobre sua relação com o dinheiro.
Se você ganha R$ 5 mil e gasta R$ 5 mil, talvez uma renda de R$ 6 mil permita guardar R$ 1 mil. Mas também é possível que você encontre novas formas de gastar esses R$ 1 mil. Se isso acontecer, você não resolveu o problema; apenas aumentou o tamanho do orçamento e criou novas despesas que passarão a parecer indispensáveis.
Talvez você realmente precise aumentar sua renda. Mas talvez também precise reduzir alguns gastos, controlar determinados impulsos, eliminar hábitos de consumo, utilizar o crédito com muito mais critério e começar a guardar dinheiro para o futuro.
Uma coisa não exclui a outra. O problema é acreditar que somente uma delas resolverá tudo.
Comece olhando para os seus aplicativos
Faça uma experiência simples. Abra seu celular e observe quantos aplicativos estão relacionados ao consumo: compras, alimentação, transporte, marketplaces, promoções e serviços que enviam notificações constantemente para lembrar que existe alguma oferta esperando por você.
Agora faça uma pergunta: quantas dessas ferramentas facilitam minha vida e quantas facilitam meu consumo?
A diferença parece pequena, mas pode ser enorme para o orçamento. Um aplicativo não coloca a mão no seu bolso sozinho; ele apenas reduz a distância entre o seu desejo e a possibilidade de comprar.
Em alguns casos, simplesmente retirar do celular os aplicativos que mais estimulam o consumo pode ser uma decisão financeira inteligente.
Não porque o aplicativo seja ruim ou porque comprar seja errado, mas porque você conhece seu próprio comportamento. Se determinada ferramenta faz você gastar dinheiro que não deveria gastar, criar uma barreira entre você e a compra pode ser uma forma simples de recuperar o controle.
A pergunta que você deveria fazer hoje
Depois de mais de 1.500 consultorias financeiras, uma das coisas que mais me chama a atenção é perceber como pessoas diferentes, com rendas diferentes e histórias diferentes, podem cometer erros muito parecidos. Algumas ganham pouco e enfrentam dificuldades reais; outras ganham muito, mas continuam vivendo acima da própria capacidade financeira.
Algumas possuem dívidas antigas, outras enfrentaram problemas inesperados e outras simplesmente foram aumentando o padrão de consumo ao longo dos anos.
Mas existe um comportamento que aparece repetidamente: gastar sem estabelecer limites claros para o próprio padrão de vida e acreditar que o próximo aumento de renda resolverá aquilo que, na verdade, exige uma mudança de comportamento.
Por isso, talvez a pergunta mais importante para você hoje não seja “quando vou ganhar mais?”. Pergunte: “o que estou fazendo com o dinheiro que já ganho?”
Talvez você descubra que precisa aumentar sua renda, e isso é perfeitamente legítimo. Mas talvez descubra algo ainda mais importante: que precisa diminuir alguns gastos, controlar alguns impulsos, utilizar melhor o crédito, eliminar alguns hábitos de consumo e começar a guardar dinheiro para o futuro.
Não podemos controlar tudo o que acontece na economia.
Não podemos determinar o preço dos alimentos, da gasolina, do aluguel ou dos serviços.
Mas podemos decidir quantas vezes vamos pedir comida, quanto gastaremos com transporte por aplicativo, quanto compraremos pela internet, qual carro vamos financiar, quantas parcelas vamos assumir e, principalmente, qual padrão de vida vamos sustentar com a renda que temos.
A verdadeira liberdade financeira não começa necessariamente quando você passa a ganhar muito. Ela começa quando você aprende a administrar bem aquilo que já ganha.
E talvez esse seja o ponto que esteja sendo esquecido em boa parte das discussões sobre endividamento: enquanto olhamos para a inflação, para os salários, para o custo de vida e até para a facilidade de acesso ao crédito, precisamos também olhar para dentro do nosso próprio orçamento.
Porque a pergunta não é apenas “quanto custa viver?”
A pergunta também precisa ser:
“Quanto custa o meu jeito de viver?”
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